• Paulo David

A remodelagem do mercado de recebíveis que vai destravar crédito para PMEs a partir de 2021

Este artigo foi publicado primeiro no Estadão


No dia 7 de junho, entra em vigor regulamentação do Banco Central que determina que os recebíveis provenientes de cartões precisarão ser registrados em uma câmara registradora, e aí poderão, então, ser vendidos para terceiros, ou usados como garantia em operações de crédito.


No Brasil, equipamentos, estoques e recebíveis representam a maior parte dos ativos de uma empresa média; enquanto os ativos imobilizados representam a menor parte. Apesar disso, os bancos ainda preferem os ativos imobilizados como garantias para contratos de empréstimos. Essa preferência por ativos imobilizados prejudica a tomada de crédito por indústrias e varejistas, que ficam com opções restritas de financiamento para suas operações.


Para viabilizar giro neste contexto, a antecipação de recebíveis, especialmente duplicatas e crédito de cartões, consolidou-se como uma das modalidades mais efetivas para concessão de crédito no Brasil. A antecipação de recebíveis permite que as empresas vendam a prazo ou parcelado, mas recebam a vista. É um produto de crédito mais simples e mais rápido de ser acessado. No último ano, mais de 1/3 do volume de crédito distribuído pelo sistema financeiro foi via antecipação. É mais do que os bancos conseguem aprovar em capital de giro.


No caso dos recebíveis do cartão de crédito, a antecipação vai ficar melhor, para os empresários. A partir do dia 7 de junho entra em vigor a regulamentação do Banco Central que determina que os recebíveis de cartões precisarão ser registrados em uma infraestrutura do mercado financeiro denominada câmara registradora.


As câmaras registradoras são empresas de tecnologia - licenciadas e reguladas pelo Banco Central do Brasil - criadas para garantir a unicidade e a disponibilidade dos ativos financeiros que estão sendo negociados no mercado. O registro do recebível de cartão de crédito garante para o mercado que aquela carteira de recebíveis de cartão tem lastro, e que ela ainda não foi vendida para terceiro. É, portanto, uma infraestrutura do mercado financeiro para reduzir fraude e diminuir o risco em operações de crédito.


Da forma como é hoje, os empresários só podem negociar a antecipação dos recebíveis dos cartões com as adquirentes, ou seja, com as donas das maquininhas. Sem poder levar a carteira para outros compradores, os empresários ficam sem poder de barganha para negociar taxas melhores.


Após fazer o registro da sua carteira de crédito de cartões em uma câmara registradora, o empresário poderá negociar os recebíveis dos cartões com múltiplos credores, ou usar estes recebíveis como garantia em operações de crédito. A competição pela compra dos direitos creditórios vai destravar mais e melhores condições de crédito para varejistas, indústrias e prestadores de serviço no Brasil, inclusive aqueles de pequeno e médio porte.


No Brasil, por ano, R$2,3 trilhões são vendidos através de cartões; e esse volume aumenta com a digitalização da economia. Em 2020, segundo dados do Banco Central, o volume de antecipação de faturas de cartão no sistema financeiro somou R$200 bilhões. Existe um espaço de crescimento enorme. Com mais e melhores negociações, com a entrada de novos credores que poderão adquirir essas carteiras, devemos observar melhoria nas condições negociadas em favor dos empresários.


O uso destes recebíveis de cartões registrados como garantia de operações de crédito e financiamento deverá ocasionar um destravamento no volume de crédito disponível para as empresas pequenas e médias.


215 visualizações0 comentário